"The Bold Type" entrega uma série importante para o mundo atual, exemplificando o feminismo através de três amigas e uma revista de moda.

“The Bold Type” entrega uma série importante para o mundo atual, exemplificando o feminismo através de três amigas e uma revista de moda.


Nota da Colab: este texto, com colaboração de vics, contém leves spoilers.

 

TThe Bold Type é uma série original da Freeform. Atualmente composta por três temporadas, a produção é baseada na história de vida e trajetória profissional de Joanna Coles, ex-editora-chefe da revista Cosmopolitan.

Na produção, a famosa revista é substituiída pela fictícia Scarlet, enquando Joanna Coles dá espaço para Jacqueline Carlyle (Melora Hardin). Apesar de The Bold Type retratar esse universo jornalístico, o foco da trama são três amigas, parte da equipe da revista: Kat Edison (Aisha Dee), chefe do departamento de redes sociais, a escritora Jane Sloan (Katie Stevens) e Sutton Brady (Meghann Fahy), estilista do departamento de moda. Criadas especialmente para a série, cada uma delas enfrenta dramas envolvendo a vida profissional e amorosa, passando por processos de autoconhecimento e descobertas que, de alguma forma, se encaixam com as pautas da revista em que trabalham.

 

Além do Esteriótipo

A amizade entre as três protagonistas é um dos pontos mais fortes da série, que compartilham seus momentos mais importantes dentro do refúgio delas: o closet da empresa. A todo tempo, em uma verdadeira demonstração de sororidade, elas se apoiam e fazem de tudo para serem compreensivas umas com as outras e ajudar em momentos de dúvida e desespero.

Com um elenco majoritariamente feminino, The Bold Type também triunfa ao retratar uma revista voltada para o público feminino, precisando se adaptar na sociedade atual. É diante dessa incógnita que elas questionam, por exemplo, o próprio discurso de padrões de beleza reforçado constantemente pelo mundo da moda e a superficialidade dos assuntos que um dia foram conteúdo principal da revista – e em como alguns se tornaram irrelevantes enquanto outros temas ganharam relevância.

Não apenas moda e maquiagem, não apenas mulheres com padrões estéticos considerados perfeitos para os olhos humanos, Scarlet aborda comportamento, diversidade, quebra de tabus e também ousa ao fazer denúncias (como abusos de teor sexual ou físico).

Na foto, o elenco da série, da esquerda pra direita: Alex (Matt Ward), Sutton, Kat, Jane, Richard e Jacqueline

Ainda, a série dá o necessário peso para o fator dos avanços tecnológicos, mostrando como a revista vem enfrentando esse meio e se adaptando para o formato digital – situação esta bem comum entre os veículos de comunicação na vida real. Tendo isso em vista, vemos em The Bold Type as dificuldades, conflitos e como as tecnologias podem ser agregadas ao formato tradicional, além de como a vida de seus empregados se relaciona diretamente ao ambiente e serve para moldar essa revista de peso tão importante para tantas mulheres.

 

O Tipo Corajoso

As mulheres The Bold Type são reflexo de como o sexo feminino vem se emancipando e lutando contra o machismo enraizado. A ideia da série, como alude o título, traduzido livremente para O Tipo Corajoso, é acabar com os estereótipos criados para as mulheres, demonstrando que elas podem e devem dominar espaços e cargos altos, provando que não são seres frágeis, tomadas por emoções e incapazes de ter voz.

 

O Tipo Jacqueline

Essas caracteristicas podem ser facilmente percebidas em Jacqueline. A editora-chefe da Scarlet precisa constantemente bater de frente com um conselho majoritariamente masculino, tendo que provar e comprovar todas as decisões que toma para melhorar a revista que ajudou a construir. E em todas as vezes ela triunfa, provando que suas idéias são sábias e não vão contra a corrente apenas por infantilidade, mas sim para lançar tendência e ser uma publicação de peso e de importância, capaz de mudar todo o mercado em que habita.

Jacqueline é a personificação do chefe que todos queremos ter

Melora Hardin entraga uma personagem cheia de sabedoria e de bagagem, que ainda está empenhada em levantar todas as mulheres que trabalham para ela, tendo interesse pessoal e dando um boost de auto-confiança em cada uma delas, quando necessário. A editora-chefe não está interessada em pisar nem diminuir ninguém (e muito menos prender incondicionalmente elas à publicação), estando apenas interessada em continuar construindo o legado da revista e transformar aquele espaço em um ambiente saudável e de grande prospectiva para todo mundo.

 

O Tipo Jane

Nessa ambiente de grande sororidade, Jane avança muito ao longo de The Bold Type. Suas matérias ganham destaque por sempre ousar e escolher temas polêmicos e muito subjetivos, procurando demonstrar seu olhar, mas levando em consideração as situações comuns de outras mulheres.

O sonho de Jane é escrever e contar histórias, de forma jornalística – e ela é muito boa nisso

A personagem de Katie Stevens sempre luta muito com a insegurança que o mundo profissional proporciona, questionando a repercussão que seu trabalho pode gerar nas mulheres ao mesmo tempo em que sabe ser capaz de entregar o que propõe. Ainda, é ela a responsável por um interessante e importante arco na série: o mutação do gene BRCA1, responsável pelo câncer mama e de ovário – arco este que é tratado de forma bastante didática ao longo de vários episódios.

 

O Tipo Sutton

Sutton também se vê enfrentando dúvidas com relação a sua profissão, tomando a coragem, na terceira temporada, de mudar de cargo e explorar seu talento dentro do departamento de moda – com total apoio de seu chefe. Tendo o arco com a vida pessoal mais problemática, parte de seus conflitos em The Bold Type passam a existir quando seu relacionamento com Richard Hunter (Sam Page), advogado da editora da revista, dá um passo pra frente e torna-se público.

Com alguns anos de diferença, o casal está em cargos de hierarquias diferentes, fazendo com que muitas pessoas da publicação questione a veracidade do relacionamento. Enquanto a personagem de Meghann Fahy é confrontada pela possibilidade de estar usando o relacionamento para subir dentro da Scarlet, Richard é colocado em um pedestal por seus companheiros de trabalho (homens brancos cis héteros ricos) por ter em sua cama uma mulher tão nova, cheia de gás e mais flexível [que mulheres mais velhas].

Sutton sonha alto e sabe que todos os caminhos levam para uma carreira dentro do mundo da moda

Ainda, embora ao longo das três temporadas de The Bold Type o casal acabe sofrendo por um tempo separado, o relacionamento dos dois é tratamento de uma forma louvável. Ainda que estejam em níveis econômicos e profissionais diferentes, Richard não trata Sutton como sua inferior, e a relação dos dois é saudável e companheira, com o advogado sempre dando suporte aos sonhos da jovem assistente de moda e vice-versa – além de atender desejos mais profundos e pessoais.

 

O Tipo Kat

É em Kat que The Bold Type encontra sua maior fonte de representatividade. Embora venha de uma família muito rica, Kat é uma mulher negra prodígio, sendo a chefe do departamento de mídias sociais da Scarlet estando no início da casa dos 20 anos. Ainda, sua orientação sexual começa a ser objeto de questionamento quando ela conhece Adena (Nikohl Boosheri), uma fotógrafa iraniana abertamente lésbica. Ao longo das três temporadas, o público pode ver Kat descobrindo a sua verdadeira sexualidade e explorando um mundo que nunca tinha conhecido, em um arco que é tratado com seriedade e preocupação em ser o mais fiél com a realidade possível.

Kat está “acordada” e sabe usar a sua plataforma para dar voz aos problemas em seu entorno – principalmente quando ela é o exemplo

Este e outros aspectos dão à Aisha Dee uma personagem cada vez mais engajada com as questões sociais, desde o envolvimento com a política e a militação em favor dos Movimento Negro e Movimento LGBTQIAP+, até as questões de autoestima e amor próprio. Ao longo da série, Kat procura usar sua profissão como plataforma para fazer a diferença – e dar espaço para outras mulheres fazerem o mesmo.

 

Escrita em Negrito

Fazendo uma nova tradução livre, The Bold Type também pode ser interpretado como A Escrita em Negrito. Levando para o sentido figurado, o título remete ao encargo das palavras, seja no que lemos ou no que escrevemos. Podemos interpretar isso como a relação dos conteúdos que consumimos, ou a importância daquilo que lemos. Podemos enxergar essa escrita como a emergência em dar importância à outras pautas, seja de teor político, social e/ou cultural. Em colocar em negrito palavras que, até pouco tempo atrás, eram abafadas e não ganhavam, na grande mídia, tanto espaço.

Independente se lemos The Bold Type como O Tipo Corajoso ou A Escrita em Negrito, o que conta é que a série é de grande importância nos tempos atuais. É por mostrar a ousadia de um veículo influente para o universo feminino que caminhamos contra a corrente e podemos mudar o mundo.

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