"O Mandaloriano" demonstra o amadurecimento de Star Wars ao reciclar e incorporar elementos tradicionais da franquia na narrativa.

“O Mandaloriano” demonstra o amadurecimento de Star Wars ao reciclar e incorporar elementos tradicionais da franquia na narrativa.


PPensar em O Mandaloriano apenas como um spin-off de Star Wars para a televisão é algo limitante e que desconsidera pontos importantes para o ambiente televisivo. Afinal, é possível afirmar com tranquilidade que a série de Favreau lançou e reforçou algumas tendências que deverão ser seguidas na nova década. E não, não estou falando do Yodinha – sensação absoluta que virou a internet de cabeça para baixo no último trimestre de 2019.

https://www.youtube.com/watch?v=CppDmmfNvHM

Um dos pontos importantes orbita no simples fato de que é sim possível fazer uma super produção televisiva e que não deva em absolutamente nada para os grandes blockbusters de Hollywood. Para compreender isso, basta fazer uma breve comparação com o Episódio IX de Star Wars. Ao mesmo tempo em que A Ascensão Skywalker de J.J. Abrams foi uma das piores coisas que podiam ter acontecido para a franquia em termos de criatividade narrativa, produção e demais aspectos técnicos, O Mandaloriano foi, simplesmente, a melhor.

  — Nossas Primeiras Impressões de “O Mandaloriano”  

Poster internacional

De modo similar a como Os Últimos Jedi, o Episódio VIII, de Rian Johnson, já deixou claro, a série também representa o poder que uma franquia pode ter de reconhecer vozes e ímpetos de diferentes autores. Ainda mais em um universo vasto e diversificado como o de Star Wars.

Objetivamente, sabemos que como qualquer produção de grande orçamento, O Mandaloriano é feito sob medida para agradar um determinado público e não é uma realização amplamente autoral. A questão é que dentro desta limitação mercadológica, Favreau e Johnson conseguiram demonstrar o potencial evolutivo, disruptivo e inovador que a franquia criada por George Lucas tem.

Isso, porque ao retornar à 1977 e avaliar o que de fato aconteceu com a indústria, percebemos que o impacto cultural de Star Wars ainda é, até os dias de hoje, algo sem precedentes. E por isso parto do princípio que toda grande produção realizada pela Lucasfilm tem o importante fardo de carregar este momentum. É importante, sim, que tais obras sejam reinterpretadas para novas gerações. Não apenas pelo escapismo puro, mas sim pela compreensão e interpretação de símbolos que transitam o imaginário da humanidade desde os primeiros mitos.

Yodinha e o Mandaloriano

A história, rica em referências visuais ao mangá Lobo Solitário, é majoritariamente sobre a mudança de perspectiva do Mandaloriano (Pedro Pascal) após algumas sequências de quebra de expectativa. Ao receber sua missão, o caçador de recompensas encontra seu alvo: uma criatura de 50 anos que mais parece um recém nascido. Posteriormente, o protagonista ainda é salvo graças a intervenção da criança. Sem muita exposição verbal, os episódios nos transmitem a ideia de que há alguns paralelos entre caçador e presa. Afinal, ambos foram tirados de suas famílias ainda criança e foram “salvos” por mandalorianos. Esta relação, discutida pelos episódios em plano de fundo talvez seja a principal identificação fraterna que move a história pra frente e liga toda a trama.

Tudo é um remix. Favreau, Filoni e companhia reconheceram isto muito bem nesta primeira temporada e entregaram um enredo que é rico em intertextualidade e referências. Desde as mais óbvias, que são os filmes de samurai e velho-oeste, até as mais específicas, que dialogam com a ideia de uma narrativa serializada, em que cada episódio conta uma própria história mais contida. Justamente como era em Flash Gordon, space opera que foi forte influência para George Lucas na criação de Star Wars.

Com dois arcos bem estruturados que se amarram entre narrativas episódicas e que, por sua vez, contribuem eficientemente no desenvolvimento das figuras centrais da trama, o Mandaloriano e a Criança. Tudo gira em torno deste relacionamento e de como ele catalisa uma alteração moral na personalidade do caçador de recompensas.

O que torna o Yodinha tão especial, entretanto, é o potencial comunicativo do personagem. Seu design familiar (é um ser que pertence à mesma raça do Mestre Yoda), reproduzido a partir de uma versão infantil de um signo que já conhecemos, executa uma espécie de quebra de quarta parede ao cativar o protagonista e o público com a mesma intensidade.

Pedro Pascal como o Mandaloriano, e Gina Carano como Cara Dune

Em outras palavras, o vínculo que sustenta o relacionamento é semelhante ao vínculo que sustenta a audiência semanal. Agora, o público se importa profundamente com a criança. Inclusive, podemos notar outra tendência que deve ganhar força de agora em diante: realizar lançamentos semanais dos episódios. Alguns veículos norte-americanos, como a Forbes, constataram que a audiência e o interesse público por O Mandaloriano só aumentaram à medida que os episódios eram lançados. Atingindo o pico com o episódio final e mantendo.

Isso já era observado em Game of Thrones e com as outras séries de alto interesse produzidas pela HBO, mas ainda não tinha acontecido da mesma forma com produções de serviços de streaming. É possível que de agora em diante passemos a ver mais franquias que se consagraram no cinema fazerem a transição para a TV. O universo cinematográfico da Marvel, sob a brilhante gestão de Kevin Feige, já está preparando algumas produções ambientadas no mesmo universo e que utilizarão personagens já conhecidos pelo público. Sabemos também que a franquia O Senhor dos Anéis terá a sua adaptação no Prime Video.

Por fim, existem possibilidades distintas para se explorar narrativas dentro da linguagem televisiva. Algo que sempre soa como uma boa oportunidade para as grandes franquias manterem o universo em expansão e a marca rentável. O que a gente espera é que a qualidade sempre esteja, ao menos, acima da média.

Imagem promocional de “O Mandaloriano”

Não é como se a primeira série de Star Wars tenha causado o mesmo estrondo que o filme original causou. Isso jamais será reproduzido, pois foi um evento definitivamente único. No entanto, fica comprovado que a abordagem sem compromisso direto com a Saga dos Skywalker, concedeu aos realizadores uma liberdade muito atrativa para conceber algo que é, de fato, especial e marcante.

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