“Big Mouth” segue como uma das melhores produções originais da Netflix e entrega uma temporada cheia de frescor, autenticidade e muito humor.


DDando sequência a proposta de tratar dos tabus da adolescência com um humor desbocado e provocador, a terceira temporada de Big Mouth chegou a Netflix mantendo sua essência cômica e experimentando a mescla entre gêneros para entreter. Mesmo que com uma essência despretensiosa, a série continua a impressionar com o equilíbrio entre humor e temas polêmicos, provocando o espectador até o ponto certo e divertindo na mesma medida.

A trama da continuidade a vida dos jovens Nick (Nick Kroll), Andrew (John Mulaney), Jessi (Jessi Klein), Jay (Jason Mantzoukas) e Missy (Jenny Slate), que passam pelas dificuldades e descobertas da adolescência. Na terceira temporada, os personagens que dão voz às experiências vividas pelos criadores Jennifer FlackettMark LevinNick Kroll Andrew Goldberg passam por constrangimentos e situações hilárias ainda maiores.

Poster da terceira temporada

Se no ano anterior a novidade veio com novos personagens que roubaram a cena, como o Mago da Vergonha dublado por David Thewlis, nos novos episódios o frescor vêm da forma inteligente como os roteiristas trabalham questões e temas contemporâneos no dia a dia dos jovens. Assim, sem se preocupar com o que deixa ou não de mostrar, a série usa do humor desbocado para falar do movimento #MeToo, da obsessão pelo uso de celular, do envio de nudes, da hipocondria generalizada da sociedade atual e dos diferentes espectros da sexualidade.

O equilíbrio entre humor e o desconforto das situações vexatórias, assim como dos desdobramentos que os jovens da trama passam, segue acertado, nunca extrapolando o limite do que é verdadeiramente problemático de ser dito. Um ótimo exemplo é o arco de Nick em sua relação tóxica com o celular, dando vida ao aparelho sempre com uma presença sensual e controladora, funcionando como uma perfeita representação bem-humorado de um problema real. Esse arco, junto de quando Andrew decide mandar nudes para paquerar retomam um diálogo iniciado na primeira temporada quanto a onipresença da internet como fonte de conhecimento para questões ligadas às mudanças no corpo, sexualidade, gênero e orientação sexual, ser algo muitas vezes nocivo aos jovens.

Mantendo os 10 episódios curtos, todos por volta de 25 minutos de duração, a série continua dinâmica e gostosa de assistir, com um trabalho de animação excelente para representar as sensações das personagens, além das liberdades criativas em cores e texturas durante a temporada. Mais uma vez, Big Mouth explora ainda mais dos números musicais, dessa vez como parte central de determinada parte da trama, em que os personagens participam da montagem de uma peça musical de Disclosure, filme dos anos 90 estrelado por Michael Douglas e Demi Moore.

A sacada é hilária e interessante para dar gás a narrativa e alinhar os temas discutidos, especialmente o que toca o Movimento #MeToo e a representação do desejo de igualdade das mulheres dentro da escola. Junto disso, a relação do professor Lizer com Lola serve de exemplo da hipocrisia social existente em quem procura por soluções preguiçosas que somente “tampam o sol com uma peneira”, ao invés de propor alternativas que realmente atacam a fonte dos problemas. Algo, que na proposta de Big Mouth, é verbalizado pelo próprio personagem.

Ainda, a nova temporada propõe uma abordagem interessante sobre o espectro sexual, sua pluralidade e complexidade. O aflorar de Matthew (Andrew Rannells), a continuidade da descoberta de Jay como bissexual e a introdução de Ali (dublada pela impagável Ali Wong), uma nova estudante pansexual que inicia uma nova dinâmica na vida dos jovens, são ótimos caminhos propostos pelos roteiristas para debater o tema.

Já renovada para mais três anos, além de contar com um spin-off já anunciado a respeito dos Monstros de Hormônios, Big Mouth segue como uma das melhores produções originais da Netflix. Original, inclusive, é a palavra ideal para descrever a série, que depois de três anos continua gozando de tudo com frescor, autenticidade e muito humor.

Compartilhe

Twitter
Facebook
WhatsApp
Telegram
LinkedIn
Pocket
relacionados

outras matérias da revista

Na Prateleira de Cima / Você precisa ler Taylor Jenkins Reid

No ano passado o meu ritmo de leitura não foi tão grande eu gostaria, mas isso não significa que eu não tenha tido a oportunidade de conhecer novos autores e ler livros incríveis. E entre alguns escritores que tive a oportunidade de conhecer, preciso falar da Taylor Jenkins Reid, que se tornou uma febre entre os amantes da literatura no ano passado por conta de seus livros: Os Sete Maridos de Evelyn Hugo e Daisy Jones & The Six. Fosse no Twitter, YouTube ou no Instagram, várias pessoas estavam comentando sobre a escritora e como seus livros eram maravilhosos, que
Leia a matéria »
Crítica
João Dicker

Crítica / “Tempo”, de M. Night Shyamalan (2021)

Ao longo de sua carreira, alçada a alta expectativa após O Sexto Sentido (1999) e frequentemente questionada a cada novo filme que vinha ao mundo, M. Night Shyamalan se manteve fiel a uma essência de cinema e visão de mundo que lhe parecem fundamentais, até mesmo em obras “encomendadas” como O Último Mestre do Ar (2010) e Depois da Terra (2013). Esse mote principal que guia o seu trabalho está ligado a uma visão de como a vida por si só e a simples existência já são extraordinárias – uma visão que ele gosta de trabalhar pela via da tomada

Leia a matéria »
Back To Top