"Parasita" é uma experiência cinematográfica intensa que transita entre diferentes gêneros e reviravoltas surpreendentes.

“Parasita” é uma experiência cinematográfica intensa que transita entre diferentes gêneros e reviravoltas surpreendentes.


NNão foi à toa que, durante as exibições do longa Parasita no Festival de Cannes deste ano, tenham sido distribuídas cartas do diretor sul-coreano Bong Joon Ho pedindo para que partes determinantes do enredo não fossem reveladas nas críticas. Assistir ao filme, que transita entre diferentes gêneros, é uma experiência intensa e as surpreendentes reviravoltas definitivamente fazem parte da jornada.

Quando foi exibido em Cannes, o longa já teve grande repercussão: as filas para sua sessão eram imensas e o filme logo foi apontado como favorito para levar a Palma de Ouro. Não deu outra: Parasita foi aclamado pela crítica especializada e conquistou o principal prêmio do Festival –  inclusive, um longa não recebia voto unânime dos jurados desde Azul é a Cor mais Quente (2013). Alguns meses depois, veio o sucesso do público: o filme se tornou um blockbuster na Coreia do Sul e também bateu recordes nos Estados Unidos.

A produção, que chegou às salas de cinema do Brasil em 7 de novembro, é centrada na relação entre duas famílias. A primeira, os Kims, é integrada pelo motorista desempregado Kim Ki-taek (Song Kang-ho), sua companheira Chung-sook (Jang Hye-jin) e os filhos  Ki-woo (Choi Woo-shik) e Ki-jeong (Park So-dam). Eles habitam um apartamento subterrâneo e vivem em péssimas condições: para conseguirem algum sinal de wi-fi, precisam se amontoar no banheiro. Já para a segunda família, os Park, não falta espaço ou algum tipo de acesso. Moram em uma casa vasta, iluminada e lustrosa.

O encontro entre grupos sociais tão diferentes se dá quando Ki-woo consegue um emprego como tutor da filha adolescente dos Park. A partir daí ele tenta infiltrar os outros membros de sua família na casa dos ricos. Deste ponto, a dinâmica entre as duas famílias é bastante interessante de acompanhar, especialmente porque os personagens de Parasita são muito bem construídos. A Sra. Park (Cho Yeo-jeong), por exemplo, poderia ser mais uma riquinha caricata, mas sua personalidade é crível e não se prende a estereótipos.

Imagem promocional de “Parasita”

As próprias manobras de câmera explicitam o abismo existente entre as duas casas. Na residência dos Park, a câmera se move com facilidade e transita entre os muitos espaços vazios. Já na casa dos Kim, onde é tudo muito estreito, há uma clara dificuldade de movimento. O design de produção também é certeiro: cada objeto mostrado está ali por uma razão. Destaque ainda para a direção de atores e para o ritmo do longa.

Enquanto a primeira parte da produção funciona como uma sátira, a segunda carrega elementos de horror e se apresenta como um comentário social mais contundente. Por abordar a desigualdade de classes, é possível que Parasita faça o espectador se lembrar de outras produções, como Downton Abbey (na série, a disparidade de poder é claramente ilustrada pelas posições que os patrões e empregados ocupam na casa), Nós (por conta da relação dicotômica entre “nós” e “eles”) e, por que não, Bacurau – afinal, os Park claramente carregam influências do ideal de vida estadunidense (em determinado momento, a Sra. Park solta: “Esse brinquedo é americano, não vai quebrar”). O longa se passa na Coreia do Sul, mas poderia facilmente ser ambientado no Brasil, onde os super-ricos lideram a concentração de renda global.

Imagem promocional de “Parasita”

Mesmo que pensemos em outras obras, é preciso reconhecer que Parasita carrega um inegável frescor e definitivamente pode ser considerado um dos melhores filmes do ano. Em entrevista ao jornal Los Angeles Times, Bong declarou: “até os aspectos mais mundanos do cotidiano, dos indivíduos, carregam um contexto político-social”. Cada aspecto de Parasita nos obriga a olhar pra baixo e pensar no tão perverso contexto político-social resultante do sistema vigente. Nessa disputa, sempre tão voraz, por espaço.

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