Sem inspiração, "A Crônica Francesa" acaba como um filme testamento de todos maneirismos de Wes Anderson e seus efeitos.

Sem inspiração, “A Crônica Francesa” acaba como um filme testamento de todos maneirismos de Wes Anderson e seus efeitos.


OO cinema de Wes Anderson é mesmo feito de idiossincrasias e A Crônica Francesa chega aos cinemas para provar esta ideia de forma curiosa: um filme que essencialmente representa a posição do diretor no cinema contemporâneo, na mesma medida em que sofre dos maneirismo como principal problema.

O título por si só já é bem literal do que estamos prestes a assistir: um longa de antologia que encena três artigos publicados na última edição de uma revista independente de uma pequena cidade francesa. Por mais desconexas que as três histórias sejam (afinal, o próprio formato de antalogia pressupõe essa narrativa um pouco inócua), há um fio da meada costurando tudo: o editor da revista, vivido por Bill Murray.

Então, é mesmo simbólico que já na abertura do filme a narradora anuncie a morte deste personagem e o subsequente encerramento da publicação impressa, porque assim Anderson consegue definir desde o início o principal tema de A Crônica Francesa: a finitude das coisas.

Em certo sentido, vários filmes do diretor tratam desse mesmo tema; mas este último trabalho tem um toque a mais de auto referência porque hoje ele próprio tem uma posição prestigiada e pouco alcançada na indústria cinematográfica. Em uma época onde o mecenato do cinema se faz presente como nunca, com um controle criativo extenso sobre os cineastas que topam fazer parte do jogo, é um verdadeiro poder gozar da posição de Anderson como um realizador autoral capaz de encontrar investimento para qualquer empreitada que queira propor.

Enquanto está nessa posição, Wes Anderson se mantém fiel a seus maneirismos estéticos e narrativos. A Crônica Francesa tem a tradicional encenação obsessiva de enquadramentos frontais e simétricos dos cenários estilizados no grafismo como pinturas de uma casa boneca. Da mesma forma as atuações teatrais e caricatas, tais quais o humor sarcástico e irônico tão comum nas suas obras.

Contudo, todas essas características tão identitárias do cinema de Anderson se fazem presentes aqui com pouco interesse e sabor. Acaba que todas as cores, texturas e traços de uma bela fotografia e uma direção de arte impecável acabam custando caro aos discursos do filme (o embate geracional, a arte como negócio, a manifestação artística como ato político).

Um movimento que evidencia como A Crônica Francesa sofre em dar conta de um posicionamento profundo sobre tudo o que busca dizer e acaba mesmo como uma mera ilustração de um belo texto literário. Quase que como se uma fanzine do próprio cinema de Wes Anderson fosse adaptada às telas, mas sem a inspiração necessária para nos preocuparmos com o seu fim.

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