Em "República", Grace Passô assume a direção com uma experimentação na linguagem, dando liberdade formal a temática do aprisionamento.

O curta-metragem República foi lançado como parte do projeto #IMSConvida, um programa de incentivo às produções culturais independentes, comissionando realizações artísticas de pessoas com diferentes identidades – de raça, gênero, regionalidade, contexto social e cultural – que não implicassem em deslocamentos físicos ou outras formas de quebra às medidas de isolamento social causadas pela pandemia do COVID-19. De autoria de Grace Passô e direção de fotografia de  Wilssa Esser, o filme se revela como uma antítese em que anuncia a liberdade para experimentar dentro da linguagem cinematográfica, mesmo em um contexto de prisão imposta pelo isolamento social.

República é constituído por uma experiência “docu-ficcional” em que a câmera interfere pouco na narrativa, optando inicialmente por planos longos, pouca luz e naturalização de ruídos externos, mas o filme traz uma miscelânea de elementos fantásticos, que acabam contribuindo para a estética onírica presente no discurso.

”O Brasil é um sonho.” De quem? República traduz o devaneio como o delírio de alguém que acorda no ápice do sonho. O filme tem seu clímax materializado com o conflito interno e no confronto externo de duas mulheres pretas, ambas interpretadas por Grace Passô. O microcosmo materializado pela artista sufoca e as reviravoltas categóricas manifestam o cansaço de um corpo preso à omissão política do país. República é um filme produzido em isolamento social apenas como pretexto para um dissabor já longevo.

O seu Brasil acabou, o meu nunca existiu“. O grito de Grace Passô corrobora com a estética doente e esverdeada do filme, tal qual a nação. O texto do monólogo se mostra eficaz para trazer temas contemporâneos como as fake news, a crítica ao ufanismo conservador e a dor dos brasileiros em uma nação rendida a uma pandemia global enquanto o corpo político desdenha da situação, mitigando problemáticas preexistentes que apenas emergiram nos tempos de coronavírus.

Se a personagem principal do filme acorda com a notícia de que o Brasil é um sonho, ela de fato desperta quando se questiona sobre o próprio monólogo que acabou de interpretar. A atuação traz dispositivos de imersão e de reflexão, como os olhares ambíguos de Grace que não enunciam nenhum significado, mas se distinguem por trazerem possibilidades.

A metalinguagem fílmica de República permite uma abundância de leituras por não estar circunscrito a nenhuma explicação axiomática. Ao final, o que República faz de melhor é deixar o questionamento para nós: Se o Brasil é um sonho, quem está sonhando? Se o Brasil é um sonho, em qual Brasil você está vivendo?

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