Em "Notícias de Casa", Chantal Akerman faz um recorte ambíguo e experimental para um documentário sobre a solidão humana.

Falar sobre Chantal Akerman é um exercício que jamais pode ser simplista. Seu trabalho enquanto artista do audiovisual, seja nos longas de ficções ou nas variadas maneiras de trabalhar o documentário, tem como cerne uma relação muito particular com o tempo. Tanto no sentido formal – afinal, ele próprio é um elemento importante da linguagem cinematográfica – quanto tematicamente na passagem do tempo exposta nas vidas dos sujeitos solitários que ela recorrentemente filma. Akerman reafirma essa relação em Notícias de Casa (1977), um intrigante documentário em que a cineasta retrata a melancolia do dia a dia em uma Nova York desolada dos anos 70.

O interessante aqui é como a cineasta propõe um olhar íntimo e próprio para a solidão que pode acometer a vida humana, articulando um registro imagético e temporal muito preciso da Nova York setentista. Numa das cidades mais canonizadas pelo cinema como um centro urbano vivo, intenso e glamourizado, Akerman opta por outro recorte, mais próximo do que os cineastas da Nova Hollywood fazem ao retratar a sujeira, o abandono e a precarização das ruas da metrópole estadunidense em filmes como Taxi Driver (1976).

A diferença é como a narrativa proposta por Akerman se preocupa em registrar a solidão e a violência vivida pelos corpos ordinários da Grande Maçã, sem o enfrentamento das consequências geradas por esse isolamento e pela marginalização, como mostra o longa de Martin Scorsese.

Assim, Notícias de Casa propõe uma narrativa documental experimental, quase que como fragmentos de momentos e situações banais, cotidianas e corriqueiras. Ao serem sobrepostas pela narração das cartas trocadas entre Akerman e sua mãe, elas garantem uma dimensão pessoal à um recorte aparentemente universal.

É intrigante como a cineasta se esmera ao criar ambiguidade entre uma esfera intima, presente nas trocas entre mãe e filha, enquanto essa intimidade se entremeia ao sentimento de abandono na savana de arranha-céus que vive – algo que diversas pessoas sentem em uma metrópole como Nova York. Se a cineasta convive com a solidão na cidade símbolo dos Estados Unidos, a presença da mãe demarcada pelos relatos de saudade e de casos familiares quaisquer soam mais como uma cobrança do que, propriamente, como uma manifestação de carinho e afeto capazes de dar algum folego à jovem solitária.

Nesse sentido, fica clara a dificuldade de comunicação e a distância na relação das duas. Da mesma maneira que Akerman registra os nova-iorquinos em seu dia a dia melancólico, a mãe da cineasta reconta situações corriqueiras para a filha porque há uma barreira emocional entre elas, extrapolando o distanciamento geográfico.

Quando já no final de Notícias de Casa, a cineasta deixa Nova York e parte em regresso para casa, ela opta por filmar sua despedida em um adeus lento e melancólico. Com a câmera no ponto de vista em primeira pessoa da diretora, ela capta a ilha de Manhattan cada vez menor no horizonte. Com esse desfecho, o documentário transcende de sua pessoalidade ao se distanciar de Nova York e preencher a tela com o imponente World Trade Center na paisagem nublada e soturna. Um arremate dramático de uma memória antiga e obscura, que se torna ainda mais densa devido à lembrança do atentado realizado em 11 de setembro de 2001.

Sobretudo, Notícias de Casa é um documentário que reforça a capacidade do cinema em se apropriar de imagens reais e denotar um outro sentido, em outro tempo, em outro momento para o que está captado. Uma assimilação capaz de ocorrer por um viés íntimo, por uma relação universal ou por uma forte ambiguidade entre imagem, tempo e sentimento.

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Notícias de Casa está disponível para assistir no Youtube

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